domingo, 25 de outubro de 2009

JESUS SE PARECE COMIGO

Temos quase o mesmo tempo de vida. Uso barba, ando a pé, sou pobre, tenho que fazer milagres a todo momento. Multiplico qualquer comida. Desamasso o pão que o diabo amassou e como. Sou anarquista. Acredito em uma sociedade mais justa. Acho que falta amor no coração das pessoas. Já trabalhei como carpinteiro. Fui criado por um padrasto. Conheço algumas mulheres que as pessoas tentam difamar e as chamam de prostituta. Sou amigo de bandido, traficante...
Não acredito em governo, assim como ele não queria a dominação de Roma. As vezes falo com um amigo imaginário também. Enfim, somos bem parecidos...



VANDERSON PIRES

quinta-feira, 30 de abril de 2009

ADEUS CHAPÉU DE FELTRO

Adeus chapéu de feltro
Obrigado por não me esperar...
A tarde é clara, a vida curta
Temos que aproveitar!

ll

Vá lá fora, veja o sol
Isso eu não posso te obrigar.
Meus passos são largos
E o vento é forte.
Não vou te segurar

III

No self service do destino
Cada um escolhe o seu
Não sou obrigado a usá-lo
E nem você é meu...

IV

Procure outra cabeça
No formato que for seu.
Não sou mal-agradecido
É que a minha cabeça cresceu.


VANDERSON PIRES

sábado, 11 de abril de 2009

BONECA DE PORCELANA

A boneca de porcelana, por ser muito branca, acreditava que era feita de luz.
Mas a luz cega. E o branco é insuportável para os olhos e a mente.





VANDERSON PIRES

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

*NÃO SEJA O MESMO

"Você sabe tão bem quanto eu,que uma das principais causas do tédio é a estreiteza do nosso destino.Todas as manhãs despertamos iguais ao que éramos na véspera. Ser eternamente o mesmo é insuportável para os espíritos refinados pela reflexão.Sair do próprio eu é um dos sonhos mais inteligentes que um homem pode ter."




JULIAN GREEN*

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

*

"Cada cérebro é como um circo onde um pobre cavalo preso anda eternamente às voltas "



GUY DE MAUPASSANT*

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O CONDENADO

O ônibus estava vindo, mas custei a levantar-me. Estava cansado. Meu dia tinha sido péssimo. Enquanto ele não vinha, pois estava parado no semáforo, perguntei-me o que iria fazer quando chegasse em casa.

Nesse mesmo momento apareceu um senhor do nada. Ele caminhou até a mim e disse: “Jovem idiota, digno de pena!”. Andou mais um pouco e voltou. Olhando de soslaio, novamente me interpelou: “Sua vida é lastimável! Você é o reflexo do mundo em ruínas que você ajudou a construir. Sua alma está morta! Vai pro inferno seu tolo!” E continuou andando em linha reta, sem olhar para trás. Parecia uma cena de filme.

Eu estava sozinho no ponto. Olhei para os lados, meio sem graça, e parei o ônibus. Cheio como de costume, procurei um lugar onde pudesse me escorar. No trajeto, fiquei observando as pessoas e lembrando das palavras daquele velho louco. Uns ouvindo música, outros mexendo nos celulares, poucos lendo livros... E todos procuravam se entreter com alguma coisa. Isso me fez refletir sobre a forma como eu vivo. E percebi que o velho andarilho, que disse aquelas palavras aparentemente desconexas, tinha certa razão. Quantas coisas me conduzem em rebanhos e confundem-me no meio das multidões. Será que existe um mundo capaz de isolar cada indivíduo, para que sozinhos possamos entender o significado de nascer, consumir, procriar, consumir mais, mais... e por fim morrer? Diante dessa vida miserável eu poderia chorar por toda a eternidade. Bom, ficar pensando sobre isso me fez descer dois pontos depois do meu. Tive que andar bem mais.

Tudo quanto eu fazia de inútil nesta vida subiu-me à garganta e só tive um pensamento: chegar logo em casa para tentar dormir. E minha morada era uma pequena cela em um presídio que eu insistia em chamar de casa. Afinal, eu morava ali. Cumpria pena por assassinato. Não gostava de morar ali. Entretanto, eu havia matado minha alma. Sou um assassino que matou, com requintes de crueldade, a própria alma. Eu era um condenado. E aquele senhor, de alguma forma, sabia disso.

Sozinho, trancado no escuro, eu procurava me embebedar da escuridão. Sabia que no outro dia, logo pela manhã, tinha que trabalhar para amenizar minha pena. De acordo com as leis dos homens, o trabalho enobrece a alma. Mas a minha esta morta, pensei. Por que ainda tenho que trabalhar? E mesmo assim eu era obrigado a cumprir essa lei. Afinal, tinha que continuar vivendo. Era covarde demais para por um ponto final em tudo.

Nunca tive lembranças de nada. E agora estava atormentado com as palavras de um velho andarilho. Sempre procurei disfarçar meu crime. Procurava sorrir quando as situações pediam. Mas nunca me preocupei com os problemas do mundo. Nem com que os outros pensavam. Isso era fato. Quando ouvia algo sobre o mundo, fingia entender, mas no fundo eu não dava a mínima importância. E achava muito chato ouvir alguém comentando algo que pensava entender, por ter lido em algum jornal ou assistido no noticiário. Eu não lia jornais, não assistia TV.

Você só percebe que sua alma está morta quando nada mais tem importância. Tudo fica no automático. Sem questionamentos, sem motins e nem revoltas. A única coisa que realmente importa para um corpo sem alma é a santa trindade do capitalismo: dinheiro, poder e consumo, uma coisa levando a outra.

Sete horas da manhã ouço alguém gritar meu nome: “Acorda Sr. Willian Razo!” Levantei e fui encontrar com a rotina. E ela insiste em me ludibriar com a idéia de enriquecer com o próprio trabalho. Mais uma vez finjo que acredito.

Ao final do dia, novamente estava no mesmo ponto de ônibus. Ansioso para encontrar novamente aquele velho maldito. Queria entender como ele sabia que eu era um sem alma. Mas ele não veio. Talvez eu nunca mais o veja. Sei lá! A única verdade é a de que eu realmente sou um condenado.

Mais tarde, naquele mesmo dia, encontrei um livro na minha cela. Nele havia um marcador com a seguinte frase: “O Homem não tem corpo distinto da alma. O que chamamos de alma nada mais é que uma parte do corpo.” Depois de ler isso me veio a cabeça a expressão “morto-vivo”. Era isso. Eu era um morto-vivo como tantos outros espalhados pelo mundo. Todas essas circunstâncias fizeram-me entender o meu crime, cujo remorso eterno, o mais cruel e funcional dos castigos, eu já carregava comigo. Eu ainda estava vivo, condenado a viver morto-vivo.

VANDERSON PIRES

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O DEUS MORTO




Dois dias se passaram. E o vômito não cessava. O mal-estar, a angústia atormentadora... Parecia que nenhum remédio seria capaz de curar aquela situação. Pobre homem! Tudo antes parecia normal.

A vida era igual à de todos. Acordar cedo, ir para o trabalho, sonhar com um futuro melhor. E assim os dias passavam. Como era bom encontrar os amigos para conversar sobre assuntos em que todo mundo finge ser expert: política, futebol, religião, mulheres, a vida... Mas tudo isso sempre acabava em risos e piadas. E quais destas coisas não são dignas de risos e piadas?

Certo dia, um amigo veio convicto lhe falar sobre a importância de se ter uma vida regrada, sem vícios, constituir família, etc. Tinha acabado de conhecer uma garota. Estava apaixonado. Dois anos depois, este mesmo amigo teve depressão e síndrome do pânico. Passou a tomar vários medicamentos, misturava com bebidas alcoólicas...
Sua namorada o havia trocado por um novo amor que ela conheceu em uma viagem. Todos os seus discursos moralistas deixaram de existir. Naquele momento, era insensato querer, seja lá o que fosse, intervir em seu mundo. Mesmo o bom amigo deve ter cautela nas observações, nos conselhos. As opiniões das pessoas são muito variadas. Isso torna impossível um ponto de encontro nas idéias e pensamentos, mesmo diante das concepções mais coerentes e racionais.

Nesta situação, seu amigo era mais uma mente perturbada, incapaz de decidir qualquer mudança, pois sempre nos empenhamos em defender tudo aquilo que está no coração. E o coração é egoísta demais, sempre. Nunca deixa o mínimo espaço para a razão. Cria as convicções. Obriga-nos a carregar bandeiras pesadas e nos faz tropeçar nas contradições. E o mundo do seu amigo havia mudado tão rapidamente...

Outro amigo, o mais inconseqüente, gostava de ostentar sua liberdade. Machista de carteirinha, adorava música, fumava maconha, era ateu, tinha o discurso mais liberal do mundo. Casou-se. Teve dois filhos. E passou a ver a vida de outra forma.
Já uma amiga de infância sonhava em se casar. Ter filhos era a sua meta. Vivia dizendo que nasceu para ser mãe. Chegava a espantar os namorados com este assunto. Até que, com muito custo, conseguiu convencer um rapaz mais novo que ela a se casar. Ela finalmente virou mãe. Já ser pai não era muito o forte do rapaz. Logo se separaram. A criança cresceu sem a presença do pai. Virou um adolescente problemático e cheio de traumas. A amiga ainda pensa em se casar de novo e ter mais filhos...

Estas histórias começavam a gritar em sua cabeça. Mas Ele não tinha nada a ver com isso. Sua vida não tinha tomado nenhum destes rumos e Ele amava a todos da mesma forma e se preocupava com eles.

Mas as dores de cabeça só aumentavam. Pediu uns dias de descanso do trabalho. Não conseguia se levantar de sua cama. Ainda não tinha contado nada a ninguém, pois não queria levar seus problemas para os outros. Ainda mais por não saber o que estava acontecendo. O médico disse que era estresse do trabalho, mas Ele não estava nada estressado. Aliás, nunca esteve.

Entretanto, era inevitável fechar os olhos e achar aquilo tudo normal. Sem julgar o que é certo ou errado, parecia que as angústias daquelas pessoas passaram a ser suas também, como uma penitência por ele ter sido tão livre em seu modo de ser e de pensar.

Esta possível ligação era algo do tipo espiritual e anímica ou era apenas um delírio momentâneo?
Seu corpo tremia de frio. Um frio que mesclava os ares das ruas, das calçadas sujas e escuras. A vida, que antes era tranqüila, tinha agora um peso incalculável.
Várias cenas passavam pela sua cabeça. Coisas que Ele nunca havia se lembrado antes. Sua infância, o retorno ao útero materno, slides de um futuro desconhecido. Trêmulo, adormeceu.

E seu mundo passou a ser um pensamento sem retoque. Nu, verdadeiro e cruel. Seus olhos não eram mais capazes de ver a beleza em nada. Nada!
Acordou depois de algum tempo. Viu em seu celular várias ligações não atendidas. Amigos, trabalho, família, mulheres... Subitamente, arremessou o aparelho contra a parede. Os olhos ardiam. Era como se o corpo o tivesse julgado e a sentença fosse a cegueira. Ele teria de ficar a sós com seus pensamentos. Em poucos minutos, não era capaz de ver mais nada.

Desespero, gritos... Nada daquilo adiantava. Ninguém veio lhe socorrer. Seus amigos estavam muito ocupados com suas vidas. E ninguém se preocupa mais com os outros do que consigo mesmo. Era Ele sozinho com sua mente.
“Onde está a beleza da vida?”, pensava. A beleza que nos faz contemplar o prazer que afasta todo o mal. Ele estava acuado em sua própria mente, a mais terrível de todas as prisões. Sabe aqueles pensamentos que temos quando alguém fala algo que não nos agrada? Pois é, eles nunca vão embora. Ficam ali, guardados em algum lugar, quietos, prontos para nos atormentar. A frase não dita, a frase dita... Todo este exército estava pronto para atacá-lo.

Quando parecia sufocante o suficiente, eis que o mal não parava por aí. Sua voz era o alvo seguinte. Em poucos minutos, em seu quarto, repousava o mais insuportável silêncio. Suas pernas também não mais o obedeciam. A mente é o maior inimigo que alguém pode ter. Ela sabe atacar todos os pontos vitais.

Agora Ele era uma presa fácil. O deus preso dentro de si mesmo. E aos poucos, uma luz muito forte se fez presente em seus pensamentos. Tão forte e limpa que, por um instante, Ele achou que tudo voltaria ao normal. Mas esta tranqüilidade passou rápido demais. Esta mesma luz se transformou em um enorme quadro-negro, sem brilho. Ele começou a pensar em seu tempo, quando era capaz de realizar tudo, mas nada realizou.

Era o tempo da libertação sexual, da revolução tecnológica, da liberdade de expressão. E Ele nada mudou, nada fez e nada falou. Viu a vida passar, sem se estressar com nada. Viu que todos ao seu redor também nada fizeram. Pelo contrário. Eles até achavam que suas convicções eram algum feito, que faziam a vida ter sentido... Mas ninguém era dono de si mesmo. Nem Ele, nem ninguém. Todos estavam perdidos na abundância da nova era.

Agora, Ele era prisioneiro da própria selvageria cerebral. E o preço por viver a todo momento com a sensação de ter perdido algo era muito alto. O que significava ter vivido tantos anos? Para quê? E a reflexão era o torturador... E a todo momento vinham fortes dores de cabeça. E estas dores o questionavam se sua vida eram dias de glórias e de coragem ou uma somatória de covardias e medos. À sua memória, veio uma série de situações, em que questionamentos medíocres tentavam sempre justificar a passividade diante dos fatos. A falta de coragem para enfrentar pequenas situações...
Era como uma esquizofrenia. Ele estava envolvido em um relacionamento intenso, no qual duas ordens de mensagem expressavam autoridade vital sobre ele, uma negando a outra constantemente. Ele era incapaz de comentar qualquer coisa que sua mente lhe impunha. Durante algum tempo, lembranças de sua infância o fizeram chorar. Sua mente o havia colocado diante de seus pais, como em uma cena de filme. Eles seguravam uma criança coberta por um véu vermelho opaco. Seu pai, que Ele não conhecia, vestia roupas brancas e tinha os pés descalços. Sua mãe estava nua. Subitamente, o pai, que segurava uma das mãos da mãe, soltou-a e se virou de costas. Em seguida, começou a falar para ele: “Você se fez por meio de mim, mas não saiu de mim, nem da sua mãe. Eu não pertenço a você e nem você a mim. Não me condene porque eu te libertei. Não o coloquei em nenhuma ditadura familiar. Agradeça-me pela minha ausência. Continue buscando seu caminho e não perca tempo com seus medos. A vida corre em um único sentido. Não tente resgatar nada que não existe.” Nesta hora, o silêncio interrompeu as palavras de seu pai.

Diante daquela situação, Ele começou a ter elementos para enxergar o erro de amar e odiar o passado como algo verdadeiro e estável. Mas a coragem de enfrentar aquela realidade o fez sorrir. Depois de uma eterna pausa, era como se sua mente respondesse à situação: “Maldito sejas por roubar a minha paz por tanto tempo.” E sua mente o havia libertado momentaneamente. A sensação era de que algo havia sido levemente afrouxado...

A natureza não conhece sistemas, nem classificações. Ela possui o instrumento de renovação da vida. O grande instinto que guia igualmente plantas, animais e o homem. Mas Ele fazia parte de um sistema. Um sistema imposto por outros homens. E a natureza havia escolhido um deles para julgar. E Ele foi o escolhido. Ser aprisionado pela própria vida, pelos próprios pensamentos. Era como uma crise de síndrome do pânico em que a vítima não espera por aquilo, mas quando a crise chega, impõe um controle supremo sobre a mente humana. Não importa o lugar, nem o dia e nem a hora, ela domina o dominador, domina a mente, domina o corpo...
Ele estava totalmente sem ação. Encurralado em um labirinto cinzento e sem força nenhuma para voar dali, pois Ele sabia que a melhor forma de sair de um labirinto seria voando...

Todas as quimeras humanas, os anseios vãos, tudo tinha um peso enorme em sua mente. Por instantes, Ele não suportou a pressão mental e vomitou.
Como relâmpagos, novas imagens apareciam. Algo o fez lembrar de uma faxineira que trabalhava em sua casa. De origem muito simples, ela era a submissão em pessoa! Ela parecia tão alegre que Ele achava que a vida daquela senhora era boa. Mas a imagem que lhe foi mostrada em sua mente era diferente daquele pensamento. Esta senhora apareceu em sua frente com o mesmo semblante feliz, mas algo estava diferente. “Você acha que eu era a pessoa mais feliz do mundo? Eu que ter servia em troca de míseros trocados?” Depois de uma pausa e um sorriso cínico, ela disse: “Nenhum ser que serve outro ser é feliz, seu idiota!”. E desapareceu.

Sua vida agora era um mundo próprio, a soma absurda de uma infinidade de mundos subjetivos e de experiências vividas, mas não compreendidas. Ele começou a entender o vazio das relações, a falta de humanidade a que somos condicionados a achar normal. As ações da existência pelas quais somos responsáveis, uma a uma. Aquele mundo era sua criação. Ele não suportou. E quem suportaria ver a própria imagem da existência nua e sem cor? Depois de uma forte arritmia cardiovascular, seu coração parou de bater. Ele deixou de ser deus de si mesmo e virou apenas mais um pensamento na mente de todos os personagens de sua vida.


VANDERSON PIRES

sábado, 22 de novembro de 2008

LÍRIOS DOURADOS




Aos quinze anos, a menina de cabelos negros, bem lisos, tornou-se mais uma das cinqüenta garotas que serviam a um velho homem. A história desta garota é igual a de milhares de outras mulheres, só que a sua alma era diferente. Ela não tinha uma personalidade muito forte, mas seus sonhos eram tão intensos que a faziam ter destaque, mesmo cercada por outras tantas raparigas.

Seu mundo era outro. Nele não havia bonecas nem brinquedos de menina. Mas sua imaginação era forte, lúcida e livre.
Como de costume daquele lugar, o velho bode foi seu primeiro homem. Ele a usou e se renovou com a sua juventude e beleza. A menina entendia o que estava acontecendo e não impôs obstáculos, nem mesmo na primeira noite. Ela procurou sentir prazer, talvez um prazer maior que o do velho. Sua imaginação permitia levá-la a um outro universo.

Ela sabia que em sua vida não poderia haver nenhum tipo de necessidade. Nenhuma necessidade! Para ela não existiam modelos e nem ela serviria de modelo a ninguém. Sua vida se resumia a uma escravidão sexual e terrena, mas não espiritual. Sua alma era leve e serena.

Todos os dias, logo pela manhã, ela lavava roupas na margem do rio com outras tantas mulheres. Os cânticos eram entoados em coro. Às vezes, ela parava e observava as outras. Via naqueles olhares sonhos, esperanças, desilusões... Existia uma resignação coletiva. Isso a fazia pensar em como seria a sua vida dali alguns anos.
Uma destas mulheres, de rosto marcado e castigado pelo sol, era a mais velha de todas. Aparentava ter vivido uns 65 anos, mas na verdade foram apenas 45. Seu nome era Laura. Sem muitas explicações, Laura e a menina passaram a ser grandes amigas.
Laura era uma das primeiras mulheres aliciadas pelo bode velho. Sábia e muito viva, aprendeu a ler e escrever. Quando questionada pela menina sobre como suportava tanto tempo vivendo naquelas condições, uma breve pausa se fez: “A leitura e a escrita libertaram minha alma.” A menina, sem entender muito bem o que aquilo significava, foi capaz de captar o sentimento da velha mulher e chorou... Juntas, elas se abraçaram.

Laura começou a ensinar a menina a ler e escrever. Agora, as noites de prazer do velho, eram intercaladas com saraus e muitas histórias de diversos livros. Laura, pela primeira vez na vida, estava feliz. Contava com imensa alegria tudo que sua alma guardava por todos estes anos.

Dentre estas várias histórias, uma teve mais repercussão. Contou Laura que, em um país muito distante dali, existiam mulheres como elas. Estas mulheres eram chamadas de concubinas. Eram as filhas da China. Só que, ao contrário da realidade das meninas, lá os homens mais novos se casavam com mulheres mais velhas. Era tradição daquele lugar, mulheres ajudarem a criar seus maridos. Todas ficaram inquietas com este detalhe da história. Pareciam entender o papel da mulher neste mundo dominado pela força.

Diante destes detalhes, as várias mulheres estavam atônitas ouvindo com muita atenção as palavras da sábia. Laura continuou a contar a história. Dizia ela que neste país, as mulheres, a partir dos dois anos de idade, tinham seus pés enrolados por faixas, para que não crescessem mais que oito centímetros. Os “Lírios dourados de oito centímetros”. Os homens da China admiravam isso, pois a visão de uma mulher oscilando por ter os pés pequenos demais, tinha um efeito erótico. A vulnerabilidade das mulheres provocava um sentimento de proteção nos homens. Todos os ossos dos pés eram quebrados e a maior parte das mulheres submetidas à prática desmaiavam de tanta dor.

Nesta hora, todas começaram a falar sobre este detalhe que para elas se mostrava tão cruel. Parecia que, neste momento, elas se sentiam mais leves... Mesmo sendo expostas à escravidão sexual, o fato de não serem submetidas a este tipo de prática trouxe um alívio momentâneo. Imaginar os pés esmagados para agradar os homens parecia uma coisa sem nenhum sentido prático.

Laura, em um discurso inflamando, começou a falar: “Estes senhores do mundo são apenas meros animais de nossa fauna. Eles não sabem dançar à noite sob o luar, não sabem amar a própria carne de seus corpos, não sabem demonstrar nenhum sentimento, só querem o poder, só querem mandar e ser servidos. Mulheres, tenham piedade de nossos vencedores, porque eles são fracos em espírito e ingênuos de coração”.
Este momento foi o mais mágico para a menina de cabelos longos. Ela fechou os olhos e imaginou que seu mundo poderia ser outro. Em seus pensamentos, um lindo corcel negro vinha correndo em sua direção. Ele trouxe em sua boca um enorme lírio dourado. E sem saber como era exatamente essa flor, de alguma forma ela pode sentir o perfume. Era como respirar o mais puro ar das alturas. Ela sentiu o momento mais livre de sua vida.

Em silêncio, todas as mulheres foram se deitar. Mas Laura e a menina continuaram ali, em transe, sem pronunciar nenhuma palavra. Cada uma com seus pensamentos. Não importava qual seria a situação, elas eram duas pessoas livres. Com a capacidade de buscar a felicidade dentro de si, sem depender de nada.

E elas esperavam com paz de espírito, em algum momento de suas vidas, tudo pudesse ser como em uma história que os livros carregam, onde o amor possa libertar as almas que vivem sem saber viver.



VANDERSON PIRES

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

ESQUECER ...

Existe um tempo em que é preciso perder a memória, descalçar os sapatos e ficar em silêncio... Deixar o esquecimento tomar conta da vida. Só assim podemos nos encontrar de novo. Em algum canto esquecido da alma...O esquecimento talvez seja a maior virtude do homem...



VANDERSON PIRES

CORRER E AUMENTAR...

"Toda gente vive apressada, e sai-se no momento em que devia se chegar", (Marcel Proust)


Toda essa gente pensa que sabe. Corre sempre e nunca termina nada. Acha bonito a pressa e apressa a desilusão. Caminhar é um verbo do passado, retrô. Correr está na moda, mas não no sentido de exercitar o corpo, mas sim na busca caçadora das metas da modernidade: Aumente seu "networking", seu pênis, seus seios, aumente sempre...tudo!
Ah, toda essa gente que corre, que tem pressa, que quer aumentar algo...nunca chegarão em um lugar seguro.

VANDERSON PIRES

PALAVRAS

Quantos dedos havia naquela mão?

Quantos deles queriam me tocar?

Quantos eram limpos?

As palavras tomaram o poder dos meus dedos...

E eles costuraram a minha boca.

VANDERSON PIRES

A REVOLUÇÃO VIRÁ AO ENCONTRO

Que as revoluções vindouras ressuscitem as pobres prostitutas nicaragüenses, que ao invés de dólares, pediam fuzis e munições.
E que todos possam ter ouvidos para os versos cantados pelo Rei do Cangaço:

"É lamp... é lamp...
É lamparina, é lampião,
Eu me chamo Virgulino,
Me tratam por Lampião!"

Nem os ratos vão respirar o odor corrompido do mundo!
Pois não vamos mais ter que nivelar nada com o chão.
A multidão esfalfada se renovara.
Nenhum trabalhador será chamado de salamandra, pois não precisaremos mais de petróleo.
O silêncio que brada ordens juntar-se-á as pedras que voam das mãos sem asa.
Os soldados não vão mais tiritar de frio por trás das armas.
Não vamos mais ter fome de vaca no pasto.
Deixaremos as árvores em paz.
E vamos limpar o mundo das máquinas,
Pois não podemos esperar nada dele.
Não se pode esperar nada deste mundo!
E o meu universo que só existe nas palavras,
Vai abrir o caminho, pois nenhuma porta consegue se manter fechada.
E não teremos mais dúvida de que o mal não está nas instituições, mas sim nas profundezas de nosso ser.

VANDERSON PIRES

CENA URBANA

Acordo e vejo que nada mudou.

Já era tarde e eu precisava correr...

Não tinha nenhuma vontade de dizer "bom dia".

Desviava-me dos olhares.

Queria apenas ficar quieto.

Mas ninguém parece entender que precisamos ter silêncio.

Mesmo que nada nos aborreça; não falar faz bem.

Somos sempre obrigados a ter uma opinião sobre as coisas...

E existem muitas delas que eu não quero saber de nada!

Entro no ônibus lotado. As pessoas, num ato coletivo de ignorância, disputam o mesmo espaço perto da porta. E eu quase que não consigo passar da catraca.

O meu celular toca. "Logo cedo...tenho que atender?". Sim!

O identificador de chamadas é o grande acusador. Você sabe quem está ligando. O simples ato de ignorar pode ser cruel demais. Fica a dúvida do outro lado da linha. Mais dia, menos dia, seremos cobrados. Teremos que dar satisfação. "Liguei pra você, por que não me atendeu?"

Eu não atendi. Mas alguém parecia muito querer falar comigo. Definitivamente, eu não estava disposto a atender.

Procuro respeitar muito as mulheres com TPM. Acho que sofro algo semelhante...

Ainda no busão, um idiota ouve pelo celular, sem fone, uma música bem cretina. E ainda faltavam pelo menos uns 20 minutos do meu destino final. Tento ler um livro. Mas a raiva mata a concentração.

Finalmente, com quase 15 minutos de atraso, chego a uma estação do metrô. Acelero os passos. Na minha frente um grupo com cinco pessoas, conversam tranquilamente, caminhando como tartarugas.

Vou para a rua na intenção de ultrapassar o obstáculo...

É impressionante como as pessoas sem nenhuma noção de civilidade, encontram seus pares com muita facilidade.

Logo na entrada da estação, mais um grupo resolve parar para conversar. Minha vontade era de ir correndo em direção a eles e derrubar todos.

Com muita paciência consigo chegar nas escadas. Mesmo com vários avisos de "Deixe a esquerda livre", é nessas horas que podemos entender a quantidade de analfabetos no país. Ou será apenas dislexia coletiva?

Bom, nem preciso falar que o vagão estava cheio e a maior parte se concentrava, na...na...porta!

Pelo menos eu sabia que iria ficar pouco tempo espremido ali.

Saio apressado. Só mais uma rua e chegarei ao meu trabalho. Na minha frente um fumante me defuma. Joga a bituca no meu pé.

No cruzamento um carro para na faixa de pedestres.

Respiro fundo. Conto até três...

Finalmente chego no trabalho. Nem quero contar mais...estou de saco cheio.

VANDERSON PIRES

MENINOS DO FAROL



As crianças em São Paulo aprendem a fazer arte no farol para sobreviver.

São os malabaristas sem circo, sem palco, sem mico.

Os diretores são exigentes. Pai, mãe, avós ou qualquer pessoa que seja maior e mais forte pode dirigir o espetáculo.

Pés descalços, asfalto quente.

Diz a gente grande do carro: não dou dinheiro.

Fecha os vidros, buzina e acelera.

É um meio de vida no meio da vida.

Mas a cidade ainda parece ser de todos.

Até quando a tecnologia vai deixá-los ganhar centavos no farol?

Em uma cidade que a cada segundo, dez compras são efetuadas por meio de cartões de crédito ou débito.

Será que a substituição do dinheiro pelos cartões vai acabar com a mendicância? E os cartões dos palhaços sem talento de Brasília?

Os artistas do farol ainda sorriem com os teletubbies...

Na cidade dos 30 mil milionários, vamos continuar a discutir a ética inventada pelo homem.

Pois, não há mais como pescar. Porque os peixes estão nos congeladores. Comprados por centavos e vendidos com cartões.

E os meninos do farol, não tem rio, nem peixe, nem anzol...

VANDERSON PIRES

FUTURO

Quando penso no futuro, deixo de viver
E a vida passa... e os medos vencem.
Nesta hora sou o mais infeliz dos homens
E a fantasia me engana.
E vou muito além de mim, além do que sou

Quando tento imaginar o meu rosto no futuro,
Com marcas do passado, cabelos brancos, dificuldade de ereção...
Sofro sem saber o porquê.
Pois não estou lá, aqui estou!

Quero que o futuro seja passageiro como as estações do ano
Para sobrar algum tempo vivo...
Pensar no futuro é matar o tempo.

VANDERSON PIRES

MORTE

Existe uma ponte. Ela é o caminho que devemos cruzar. O outro lado da
vida: a morte. A responsável pela criação de Deus e seus semelhantes.
Histórias, desejos de eternidade, espíritos e o medo de morrer...
O apego é a bola de fogo que não queremos nunca largar.
Mas o amor, o verdadeiro amor, existe para livrar-nos do peso da perda, do egoísmo existencialista que carregamos sem parar para questionar.
Eu não deixo de amar alguém porque ela não está perto de mim.
E procuro entender a grande ida sem volta. Quando o corpo é coberto por terra e a vontade de chorar for mais forte, o amor tem que falar ao coração: "entenda a natureza porque você faz parte dela". E o que é natural carrega o bem e o mal no mesmo cerne.
Somos visitantes em uma rápida excursão pelo mundo. Apenas isso.
Sinto saudade dos que foram. Mas eu os amo da mesma forma.
Tento compreender o caminho...
E peço forças para o amor, para que ele alivie as minhas dores e as do mundo.

VÂNDERSON PIRES

O LIVRO DA VIDA

No dia 26 de outubro do ano de 2007 d.C. eu pude ver mais clara a imagem do fim, ou de um outro começo, não sei...
Eram 28 anos completos.
E a cada ano que se vai, a cada hora que passa, é mais um passo para chegar a grande conclusão da vida...
Algumas pessoas se lembraram desta data. Uma data que, na verdade, só tem importância para mim, pois só eu sou capaz de entender a quantidade de páginas que possui o meu livro, a minha história, a minha vida...
E a cada página virada, umas bem compreendidas, outras um pouco confusas, eu busco as respostas de um leitor curioso e às vezes ansioso para saber qual será o final. Mas não há como ler as últimas páginas. Porque neste livro o autor ainda não sabe onde sua história vai parar. Pode ser daqui a duas páginas, duas linhas, duas palavras...
Esta é a grande graça de ler. O inesperado, o que estar por vir.
E eu tento ler a minha vida a cada ano completado. Vejo as relações que ficaram mais fortes, as que eu achei que nunca iriam enfraquecer e hoje as vejo morrendo, escapando como água por entre meus dedos.
Sinto algumas alegrias, algumas tristezas... E isso faz da minha consciência um grande acúmulo de parágrafos grifados.
Vejo as coisas que mudam e as que permanecem sempre iguais, do mesmo jeito.
Meu coração tem acumulado alguma poeira, afinal, estou falando de um livro de 1979, que pode ser velho para uns, novo para outros... Mas com uma verdade: o tempo nunca é o mesmo para cada um.
E hoje eu já tomo mais cuidado com o meu livro em relação ao passado.
Eu já o emprestei, joguei de lado algumas vezes... Pensei em vendê-lo, queimá-lo... Já parei a leitura por tédio, decepção, desinteresse...
Mas hoje essa história tem toda a minha atenção. E em casa, na minha solidão, sou capaz de rir de muita coisa. Vejo que o tempo, o grande narrador da história, me ensinou a gostar de rir. Rir de mim, dos outros... Rir, sem dúvida, faz da história algo mais leve, mais interessante.
E seja lá qual for o final, a única coisa que realmente importa é o prazer da leitura, o simples prazer de ler...

VANDERSON PIRES

CAVALOS



I

Deitada sobre mim, ela escondia sua intenção.
Julgou ser capaz de me aprisionar, com um simples olhar sem nenhuma razão.
E eu, ligeiramente ingênuo, deixei acreditar. Que toda a voz proferida pudesse voltar
ao lugar da partida. Onde a morada nem sempre é vazia. Onde a busca quer me tomar.
Sacudi os flancos. Espirrei os farrapos e corri a olhar pela vastidão de um lindo campo. Busquei meu cavalo e me tornei um herói.
Quando cheguei naquele lugar, era como um deus. Cabelos longos, barbudo montado em um cavalo. Uma visão que os olhos não viam. Eu era a profecia assustadora e galopante.
E também quis provar que em determinado momento da cavalgada, meu cavalo voava. Ele tirava as quatro patas do chão. E ela tentou ver isso. Mas não conseguiu. Porque sua visão era limitada e lenta demais.
E eu disse: "Se um cego pudesse escolher entre a sua visão e a sabedoria dos passos lentos e precisos na escuridão, a resposta seria a cegueira".
Contudo eu não me fiz compreender. E busquei esperar o sol. Parado, respirando tranquilamente, eu fustigava seu ser. Lentamente...
Seu nome era solidão. A viúva que nunca amou.

II

Passado um tempo, logo após o nosso desencontro, eis que o mundo ficou diferente.
Já não era mais possível fingir que estava tudo bem. A depressão, a ansiedade e a angústia eram, agora, aliadas da solidão. As pessoas não deixaram de sorrir por isso. Mas era só um ato de exposição da arcada dentária, assim como os cavalos mostram seus dentes... E eu amava mais os cavalos que aquelas pessoas. E elas também nunca quiseram amar. Só queriam ganhar. Assim como os cavalos nas corridas. E o cheiro do estábulo era melhor que o aroma dos frascos de perfumes famosos. Eu não uso perfume. Como os cavalos.
Eles quiseram ser fortes como os cavalos e correr na mesma velocidade. E criaram os motores com seus cavalos industriais e mecânicos. E transformaram-no em símbolo de poder e status. E todos sonham em ter mais de mil cavalos.
E esse sonho criou guerras, matou pessoas e fez a terra jorrar o sangue negro para os vampiros. E eu apenas queria andar tranquilamente como um cavalo sem senhor, sem dono e sem patrão.
Na época dos cavalos não existia poluição. Não existiam mortes no trânsito e nem o som irritante das buzinas.
Quando os cavalos eram amigos, o homem era natural. Hoje os cavalos perderam a força. E o homem, a naturalidade...

VANDERSON PIRES

FELINAS

As mulheres são como os gatos.
Seres independentes.
Felinas, astutas, predadoras...
Brincam, quando querem brincar.
Matam por prazer.
Porque não são carnívoras, são antropofágicas.
Sabem dormir em silêncio.
Escondem-se quando a procuramos.
Aparecem no momento de aparecer.
Lambem o pelo,
Sentem o gosto,
Beijam o rosto...
Língua áspera, rabo longo.
Seios para amamentar.
Gatas, mulheres, felinas
Nunca param de brincar.

VANDERSON PIRES

AOS AMIGOS QUE FICAM...

Onde estará agora aquele meu amigo,
Que trocou as primeiras palavras em sala de aula
No primeiro dia de escola?
Onde estará aquela turma que se reunia para jogar futebol na rua?
E aquele outro amigo, que por ser mais velho, falava das mulheres e seus desejos?
Onde estarão todos eles, já que alguns nem mesmo a minha memória pôde guardar?
Será que em algum momento eles ainda se lembram de mim?
E se lembram, será que sentem saudade?
Como é difícil manter uma amizade verdadeira. Como é fácil esquecer e ser esquecido.
Conhecer pessoas, fazer colegas, eis uma tarefa simples.
Dizer "ah, vamos marcar algo", é uma doce mentira em que todos fingem acreditar.
Mas na hora que tudo está escuro e a vida mais parece um campo de batalha,
Quando somos feridos e em nosso jardim as flores estão secas
E descobrimos que a mulher que amamos não era uma amizade,
Porque amigos verdadeiros não traem.
E que colegas são apenas conhecidos que podem nem gostar de nós...
Onde estarão meus amigos? !
No trabalho, em casa, cuidando dos filhos, preocupados com as contas do mês?
Que em minha vida tudo tenha passe livre. Dou o direito de ir e vir aos meus amores, ao meu desejo, aos colegas, enfim. Mas aos meus poucos amigos que ficam dou apenas o direito da cumplicidade, do diálogo, das tristezas e alegrias... e nada mais.

VANDERSON PIRES

SONHOS

Estava deitado, sonolento. Ouvi algo. Um ruído que vinha da minha janela. Levantei. Pés descalços, o chão estava frio. Meu coração ficou acelerado pelo movimento abrupto. Abri a janela para ver o que me incomodava. Subitamente um forte vento me arrancou como uma folha de uma árvore solta, leve e sem rumo... Tentei me agarrar a algo, mas foi inútil. Durante algum tempo, não sei ao certo quanto, fui levado... Ouvi um som estranho. Eram vozes talvez. Fiquei com medo. E elas aumentavam e iam ficando mais e mais perto de mim. Um quadro negro apareceu na minha mente, e eu apaguei...
Abri os olhos, percebi que estava embaixo de uma grande árvore. Ao meu redor apenas... nada! Meus olhos não reconheciam aquele lugar. Meus sentidos atordoados não tinham mais nenhuma razão. Era eu e o nada. Aos poucos ouvi novamente aquelas vozes que repetiam... sim, não. Elas reverberavam em todo o meu corpo. Algumas imagens começaram a me assombrar. Logo percebi que aquele lugar era o refúgio de tudo aquilo que eu não vivi. O largo de uma outra vida. Uma vida paralela, onde tudo era reproduzido ao contrário das minhas decisões. Era como se fosse uma segunda chance. Ah! Como eu chorei quando comecei a ver... Como chorei ao perceber o quanto a minha vida teria mudado, se, ao invés de eu ter ido pela direita, tivesse ido para a esquerda. Quantos sim que eram para ser não. Quantos não que eram para ser sim. Logo uma angústia inundou o meu ser. Comparei meus mundos. Novamente eu chorei.
Durante um tempo eu revi tudo que já tinha vivido. Naquele momento eu tinha sido sorteado pela natureza. Ela me deu uma oportunidade de avaliar-me. Eu tentei ser forte. Olhei as imagens, revi meus erros, vibrei com meus acertos... e vi que a vida não possui certo nem errado. Percebi que não importava o meu rumo. Porque a essência era sempre a mesma. Como se a vida fosse dividida em: coisas que podemos mudar e coisas que apenas devemos aceitar. Mas eu nunca fui resignado. Nunca me conformei com as coisas da vida. Sempre lutei pelo que amei, pelo que sonhei e acreditei. Mas nessa sessão sobrenatural pude perceber que eu era uma peça solta em um mundo movimentado e abalado constantemente. Eu já não conseguia parar de chorar. E a cada lágrima, um pouco de mim escorria pelo meu rosto. Era como se meus pensamentos já não fossem mais meus. E o sentimento que causa o choro, expelia o que eu sentia. Aos poucos fui ficando leve. Uma paz que eu nunca tinha sentido antes me trouxe ao meu mundo. E, quando nenhuma lembrança do outro mundo estava mais em minha mente, eu acordei. E já não tinha mais vontade de chorar. E voltei a dormir.

VANDERSON PIRES

AMOR DE PELE E OSSO

Quando eu estiver morto
E no meu velório alguém perguntar
Por que estou sorrindo,
Saibas que é por ti.
Se a minha felicidade for questionada
Não acharão outra resposta que não seja você
Caso eu morra desfigurado
E pairar alguma dúvida sobre a minha identidade
Peça para que vejam minha pele
Lá está seu nome tatuado
Mas, se não sobrar nenhuma pele no meu corpo
Diga-lhes para olharem meus ossos.
Porque está gravado o teu nome em todos eles.
O amor é a minha busca. E a minha felicidade é você.
Se estou triste, eu te amo.
Se estou feliz, eu te amo.
Teu sorriso me faz vencer. Teu corpo é a minha oração.
O meu desejo por ti é tão fisiológico como a fome.
Porque ele nunca tem fim.
Fico ansioso pelo dia, porque te vejo.
Fico ansioso pela noite, porque sonho com você.
Sou teu filhote, és minha sorte
Meu bem querer...

VANDERSON PIRES

ESPELHO E OLHARES

O tempo. Ele clamou pelo tempo. Quando seus pensamentos eram pregos enferrujados, cravados em sua mente. Estava deitado e ao seu lado Ela dormia. Fitou-a com ternura, acordou-a e pediu para que segurasse a sua mão. Ela pensou em questionar seus pensamentos. Mas percebeu que de nada adiantaria perguntar-lhe algo. Apenas o observou e sorriu. De súbito deu um salto da cama e foi até o espelho. Colocou as mãos na cintura e como uma menina de cinco anos perguntou: você me acha bonita? Nesse momento seus pensamentos clarearam como um relâmpago. Seus olhos a seguiam levemente. Com calma levantou e ficou ao seu lado em frente ao espelho. "Eu posso ver a tua alma", disse Ele. E continuou a olhá-la. E ela é bonita? Mais uma vez o silêncio e a observação pairavam sem julgamentos. Ele a tocou no rosto. Escorregou seus dedos levemente até seus seios. Percebeu que sua pele arrepiou-se. "Você é capaz de me ver além da imagem no espelho?", disse Ele.
Ela, sem hesitar, respondeu que sim. Instintivamente suas mãos entrelaçaram-se. Naquele momento pouco importavam as respostas. Voltaram para a cama, sem pressa. Um olhar em frente ao outro. Como um espelho refletindo sua própria imagem. O tempo não tinha mais importância. Apenas o cheiro, o toque, o beijo, os lábios úmidos, o calor dos corpos...o encaixe natural. O cansaço e a leveza da alma. O desejo renovado. Era uma noite de domingo...

VANDERSON PIRES

FRIO DAS CALÇADAS

O inverno é a estação do conforto.
Blusas, luvas, cachecóis...a moda.
Dizem que as pessoas ficam mais bonitas.
E vento frio, as vezes úmido, seco...
Carrega o tilintar dos dentes que batem.
Mas são poucos os que podem ouvir.
E a fome aumenta, conforme diminui a temperatura.
Nas calçadas os esquimós urbanos
Não fazem fotossíntese.
Eles tentam esquecer que são gente.
Oh! Cam, segundo filho de Noé
Tu que reinaste na Babilônia e em Ninive
Conclama a teu pai um novo dilúvio.
Para afogar a dor e o sofrimento
Além de todos os julgamentos Divino.
Porque eles são desprovidos da beleza da moda.
E quem os olham não consegue sentir a harmonia do belo,
A mesma harmonia das vitrines das lojas.
Mas eles esperam, mesmo sem saber,
Que a semente de uma promessa cumprida,
Sem apressar o bem e o mal,
Floresça naturalmente com o calor do sol.
E a noite fria nunca tem fim...

VANDERSON PIRES

DESPEDIDA

Estou amarrado enquanto te vejo partir
E você caminha muito lentamente...
Fecho meus olhos, na esperança de não te ver mais
Mesmo assim você caminha lentamente.
Quem segura a tua mão?
Será a certeza de um julgamento?
Se o meu erro foi tão cruel, mate-me!
A superação é uma virtude para poucos.
Mas a transformação e para menos ainda.
Vai! Atravesse logo e desapareça no horizonte.
Já aprendi a viver fora do útero.
Também já senti a dor da morte.
O apego é o desassossego da alma.
Meu ego foi transpassado pelo teu punhal.
Sinto-me julgado pelos romanos.
E a minha coroa de espinhos é o teu adeus...
Ainda posso ver a tua imagem.
Mas já estou desatando as amarras.
Queres que eu te deseja felicidade?
Pois bem, mas primeiro terás que morrer.
Mesmo que isso signifique matar-me.
Porque carrego-te dentro de mim.
Ah! Maldito ego. Tu jogas para todos os lados.
Primeiro você impede o perdão.
Depois assombra o pecado,
E afunda os barcos que navegam em águas calmas.
Agora vejo minhas mãos livres.
Meus pés também estão soltos.
Penso em correr até te alcançar...
Mas, existe como correr da chuva?
Mesmo com a rainha perdida
Eu ainda sou o rei do meu castelo.
E devo proteger meu reino
Escolha o teu caminho e segue-o.
Porque ainda tenho meus peões para atravessar o tabuleiro.
E eu respiro lentamente
Seguindo na direção oposta.
Penso no mundo que é grande
E na vida que é passageira.
Neste momento nasceu uma flor nas minhas costas.
E, apesar da tristeza e do choro...eu sorri.

VANDERSON PIRES

PRATA E OURO

Morte, morte...
Se és sorte, ponha-me no laço
Onde minha força virará cansaço
E meus sonhos de naufrágio
Um refúgio para meus olhos cegos.

Conte-me uma história
Onde eu tenha sido um herdeiro.
Para que quando eu te encontrar
Não tenha contas a pagar.

Finjas que me queres
Assim como eu te desejo.
Nunca a imaginei com foice
E nem vestida de preto.

Acabe com meu sofrimento de existir
E não me obrigue a ser covarde para os olhos de quem ri.

A vida e as palavras são de prata.
A morte e o silêncio são de ouro.

VANDERSON PIRES

ESTOU GRÁVIDO

Tirem esse lixo da minha frente. Tirem essas pessoas que buscam o poder, o sucesso, a riqueza.

Que atravessem a rua os que admiram nos outros, esses quesitos. Porque se cruzarem o meu caminho eu vos digo: vocês já estão mortos com seus desejos e seu Deus.

E que se abram as portas para o despertar! Minha senha? Fernando Pessoa e seus heterônimos: “Coroai-me de rosas, coroai-me em verdade de rosas...” .

Não quero saber de conquistas, nem da linguagem acadêmica. Essa fala muda e surda de que nada serve.

Dai-me apenas o prazer barato, o prazer de colocar a perna nua para fora das roupas de cama numa fria noite de inverno e recolhê-la novamente. Salve Sigmund, não apenas pela descoberta do subconsciente, mas também pela invenção da cocaína.

E eu permaneço vivo neste mundo. Porque nada mais me dá força para sobreviver que a certeza de que a minha morte fará a felicidade de outrem.

E se Voltaire estivesse vivo ele refaria a sua afirmação de que o mundo seria livre quando o último rei fosse enforcado nas tripas do último padre. E ficaria assim: “que Bush seja enforcado nas tripas do Bentinho XVI.”.

E agora confesso: estou grávido e vou abortar em nome da vida e do direito que cabe á liberdade.

VANDERSON PIRES

ENTRE LOBOS ...

"Estava entre lobos e bebi água como um cão. Eles mataram-me..."

VANDERSON PIRES

CARTA PARA UM AMIGO

É meu amigo, a morte passa onde existe o medo. E o medo... a vida. E a vida... Por que as pessoas querem viver tanto? Viver, procriar, acumular... são ações tão comuns que, em nenhum momento pára-se para pensar: 'Navegar é preciso, viver não é preciso'. Eu não anseio o acúmulo dos anos. A terrível somatória das ações. Não! Para que? Volto a citar Borges, 'todos seremos parte do esquecimento, a tênue substância de que é feito o universo'. A vida só se procria por meio da arte, seja ela escrita, cantada, pintada, tocada, enfim, a arte contra a verdade destruidora da vida sem sentido. Só ela merece viver.
Sempre procurei fazer arte. Já rimei as ocasiões, toquei a minha revolta, tatuei as minhas marcas, transformei em filme meus pensamentos, fiz poesia... enfim, tenho a arte como a minha maior arma contra mim mesmo. Contra o tempo e suas marcas, contra a hipocrisia de todos. Faço arte para continuar a existir. Reinvento a todo momento minha forma de ver o mundo e as coisas. E a cada minuto vejo aquilo cujo tamanho é proporcionalmente igual aos meus pensamentos. E me faço grande em um mundo tão pequeno.
Estou vestido de branco, descalço. Caminho dentro de um enorme lamaçal e tenho que chegar ao seu fim... limpo! Para isso conto com a ajuda de várias forças da natureza. Pedi a elas que em protegessem. Um grupo de muito grande de formigas revestiu o meu corpo, tornando-o impermeável. Para abrir caminho conto com a ajuda do vento, que sopra com a ira de um tufão. Às vezes paramos um pouco. Afinal, precisamos descansar. As formigas são muito agitadas, mas elas gostam de me ouvir falar. Conto-lhes histórias que aprendi com os livros. Mas para elas, o que realmente importa é a minha companhia. Os livros, para as formigas, são apenas comida. Elas adoram celulose. Mas acho que convenci algumas a buscar outras fontes de alimento. Para isso exemplifiquei que os livros são, de fato, alimento, mas não da vontade fisiológica, mas sim vida. Confesso que a maior parte delas não deu a mínima para mim. Mas ainda gostam de me ouvir falar.
Já o vento é ativo demais. Não pára nunca. Mas ele já conhece todas as minhas histórias e me respeita por continuar a contá-las.
Geralmente nossa pausa dura uma semana, no mínimo. Caminhamos direto apenas duas ou três horas. Não temos pressa. Nem queremos chegar logo. Fazemos apenas o que gostamos de fazer, afinal somos livres. Nosso único problema é a lama. Mas sempre a ignoramos e para nós é como se ela não existisse. Sabemos que há uma grande diferença entre as massas. E sabemos respeitar essa condição.
Tem dias que não tenho vontade de contar nenhuma história. E nesse dia as formigas procuram criar algo para me mostrar. E assim trocamos muitas idéias, porque sei que não dependo delas para me fazer ouvir e nem elas dependem de mim para existir. Por isso somos completos e temos uma missão. Trata-se de mais uma missão qualquer. Como todas aquelas que as pessoas acham que têm na vida. A nossa é apenas atravessar um lamaçal vestidos de branco e com os pés descalços.
E a arte nos consola.

VANDERSON PIRES

O ANDARILHO E A RAZÃO

Por que razão existe o bom senso? Para aprisionar a vontade?
Não procuro mais os tépidos ventos da razão. Aqueles que tentam fazer de mim uma marionete. E que a todo momento me censuram. E sinto-me acuado.
Tenho pensado muito em peixes...E na liberdade de poder nadar. E por mais que eu os inveje jamais poderei imitá-los.
Agora sinto que já é tarde. E um estranho invade a privacidade dos meus pensamentos e me pede um cigarro. Mas eu não fumo cigarros! E o assassino do pronome deixou-me livre de novo.
E nesse momento já não sou mais aquele que eu pensei que era. E cruzo o asfalto com passos calmos. Tenho na mente uma canção. A melodia de "Misty".
E logo meu desejo sexual faz aflorar uma silhueta feminina em meus pensamentos. E a temperatura do meu corpo sobre, inflama...
Mas o meu coração ama independente de mim. E procuro não pensar em mais nada.
E faço do meu caminhar um verbo transitivo direto, mas que ao mesmo tempo não sou capaz de conjugá-lo.
Não me julgue por eu não saber onde estou indo... A segurança do saber causa-me estranheza. E a insegurança de não saber o caminho é a minha liberdade.
Agora vou pra casa. Quero dormir sem culpa. E quando acordar quero imaginar o mar. O mar como o céu. Os peixes como estrelas. E eu como um nada questionando a razão...

VANDERSON PIRES

RECEITA PARA COMEÇAR O ANO

Abre-se o novo ano! E que nele não haja só coisas boas. Nem felicidade placebo. (Apesar de sempre a querermos, seja lá como for)

Também quero a infelicidade como o segundo reinado da Bastilha. Porque meu rei está cercado por um exército de peças de xadrez.

Tente não ser patético com os votos de felicidade. Eles podem tornar alguém infeliz. Prometa a si mesmo: não serei patético!

Se se sentir triste e precisar apelar, reze. Mas tente fazer isso de uma forma menos mecânica. Faça desse ato uma conversa consigo mesmo e tente ver quem realmente és! E lembre-se:o essencial da vida e ver, ouvir e calar. Cale-se com dignidade e não tente converter ninguém à sua verdade.

Faça muito sexo e seja hedonista. E se um estranho te oferecer drogas aceite.

E por mais que você tente mudar a vida e não consegue, fique tranqüilo. Mas não tente torna - lá um ritual ridículo de segunda-feira.

VANDERSON PIRES

SE EU SUBIR NA VIDA ...

Toda subida cansa. Deve ser por isso que muitos desistem. Não é à toa que ninguém está a fim de subir escadas. A não ser aqueles que querem se exercitar um pouco... Mas é isso. Todo dia o cansaço me faz questionar: trabalho para subir na vida? Mas será que existe felicidade nas alturas? Aonde vou parar? Será que quando chegar lá em cima saberei o que fazer? Descer talvez? Não sei. Se soubesse acho que ficaria parado, congelado na leveza do ócio... Afinal, subimos ou achamos que subimos? É... e sempre queremos ir mais e mais alto. Será que quando eu subir na vida ela não vai querer me derrubar? Pode ser daí que surgiram os versos “deixa a vida me levar, vida leva eu...”. Bom, se um dia eu conseguir subir na vida, vou convidá-la para dançar. Acho-me pesado demais para ser carregado. Não me sentiria bem com isso.
E assim sigo ébrio pelo mundo, vivo frugalmente e caminho apenas cinco milésimos de segundo mais rápido que uma tartaruga. Espero que quando estiver lá no alto, a vida saiba dançar...

VANDERSON PIRES

MANUAL DO SENSO COMUM

Certifique-se que seus pensamentos são normais. Se por algum instante você sentir vontade de brigar por algo que não seja, dinheiro, futebol e posição social, pare, respire e ligue a TV, de preferência no horário nobre. Isso irá tranqüilizar e entreter.
Tente ser sempre feliz. De preferência, ajude alguma instituição de caridade e acredite que essa é a sua contribuição para melhorar o mundo. Tente imaginar que você é um anjo na terra com uma missão especial.
Acredite em vidas passadas. Tente saber que personagem você interpretou. Se descobrir que foi uma bruxa que bebia sangue ou um rei que lutava contra a inquisição, deleite-se.
Nunca se exaspere. Seja sempre resignado com a vida. O paraíso, quando você morrer, será a recompensa tão sonhada. Mas, quando estiver no trânsito estás liberado do pecado. Xingue muito e acione a buzina sempre que puder. Isso traz alívio imediato. Não esqueça de contar aos amigos sobre suas brigas automobilísticas. Você se sentirá mais você.
Use sempre frases de efeito, elas são o código maior de compreensão do senso comum.
Limite-se a enxergar apenas aquilo que seus olhos vêem.
Acredite que o voto é o ápice da democracia e faça dele a sua bandeira de campanha social.
Use sempre a copa do mundo como sinônimo de patriotismo e faça desses esportistas verdadeiros heróis da pátria.
Tente ler algo. Mas não muito, pois a leitura vai incutir um vírus destruidor no seu cérebro e você poderá sentir fortes dores de cabeça. Limite-se a revistas semanais e a literatura de auto-ajuda. Com pequenas doses você será capaz de se comunicar com boa parte da população e sempre estará bem informado. Lembre-se: informação é tudo nos dias de hoje!
Siga corretamente essas instruções. Se deus quiser, tudo dará certo, porque o caminho do justo é estreito e de difícil acesso.

VANDERSON PIRES

VOTO NULO, UM DIREITO DEMOCRÁTICO

Dentro do estruturalismo de cada um, as palavras ecoam seus sentidos diversos, onde todo discurso tenta compor uma parte da história.São verdades atemporais que envenenam, manipulam e transformam os indivíduos.
Somos assombrados pelo fantasma da idéia mentirosa da democracia. Ainda acreditamos que nesse quadro não somos apenas meros espectadores, e sim, protagonistas em horário nobre.
Por conseguinte, criam-se verdadeiros revolucionários de campanha eleitoral, todos prontos e armados com seus argumentos e o orgulho momentâneo de ser um “cidadão consciente”.
Infelizmente, esses, após as eleições, voltam à tranqüilidade do discurso conservador, mesmo tendo expressado idéias eleitorais, que são dignas de comparação ao fanatismo religioso.
Dessa forma, mantemos a combinação atual de duas estruturas inseparáveis uma à outra, a força produtiva (a subjugada) que trabalha toda a vida, sem causa, e que mantém uma minoria dominante. Daí chegamos aos seguintes números: pouco mais de 200 pessoas, em um mundo com mais de 6 bilhões, detém de 45% de todo o dinheiro que existe.
Mas, mesmo nessa lástima, o escapulário traz a fé e, de tempos em tempos, esperamos uma mudança vinda de um messias na terra. Um ser iluminado que vai transformar toda a realidade para assistirmos, na comodidade do lar, o mundo perfeito exibido pela TV.
E assim, elegemos nossos “representantes”, delegando a eles as responsabilidades que cabem somente a nós. E no entanto, as promessas, que por anos e anos são as mesmas, e que na verdade são apenas direitos básicos de todos, saúde, educação, moradia etc, se transformam em comédia diária. A única reação que tenho quando vejo alguma propaganda política é o riso. Chega desses discursos lugar-comum, basta!
Não há como haver uma mudança substancial onde a relação da produção capitalista transforma cada vez mais a maioria da população em miseráveis. Não adianta escolher o “menos pior”. A que ponto chegamos?? Eu não quero ser representado dessa forma. Tenho o direito de escolher ou não. Afinal, esse não é o cerne da democracia?
Temos que nos educar por meio da liberdade. Se não consigo encontrar um candidato capaz de mudanças, tenho o direito de não escolher. Isso não me tira a responsabilidade e nem me abstém de coisa alguma, pelo contrário, contribui ainda mais para minha autonomia, onde a maior conseqüência recai sobre a solidariedade. Todos nós temos o poder da mudança social. Não podemos acreditar que uma eleição seja realmente a solução para os problemas sociais. E é isso que acontece. Existem outras formas de pensar o mundo. O mundo não se resume a ditaduras ou democracia. Pensarmos somente nessas duas formas como opção é obscurantismo.
Ver o país nesse estágio deprimente de injustiças me faz por em dúvida nossa capacidade de discernimento. E, já que não sabemos o que é melhor para nós mesmos, voltamos ao estado primitivo da consciência. Isso faz nascer as “raposas do poder”. Nós os criamos com o voto.
Compactuo com a fala de Errico Malatesta, onde ele diz que não incide no basismo segundo o qual “as massas têm sempre razão” ou “a voz do povo é a voz de deus”. Faz-se necessário, como objetivo, lutar para que as pessoas se libertem e consigam ver a luz ao invés de somente sombras.
Por isso, não vou votar em ninguém porque não me reconheço nesses pseudo- representantes do povo. Tenho esse direito e ninguém poderá julgá-lo com frases de efeito e nem me acusar de não ser cidadão, pois, como diz Deleuze: “a vida ativa o pensamento e o pensamento, por seu lado, afirma a vida”. E eu procuro afirmar a vida de acordo com as minhas responsabilidades, não delegando a ninguém o direito de escolher o que é melhor para a minha vida.

VANDERSON PIRES

O MENDIGO

Não há muita novidade em estar vivo.
Pelo menos é assim para muitos
E, Ele caminha pela vida.
Quando a invasão de carros suja a cidade.

E o chamado "cidadão de bem"
Aciona sua ira no grito demente da buzina
Na pressa incansável dos dias.
Dois cachorros o acompanham no seu caminho contínuo

Na sombra de uma ampla árvore, descansa uma lixeira
E é lá que fica o descartável!
No amontoado de dejetos, ele para e procura.
E a busca segue viagem ao desconhecido.

Ele rumina o lixo e ameniza a podridão
E os ecológicos deveriam preservá-lo.
E, no plexo solar do mundo todo azul
O cheiro fede, arde e queima.

Os cachorros ladram para a caravana dos automóveis
Levados pelo instinto.
As calçadas pisadas por pés cegos proliferam frases rudes,
Contra o dia que segue calado... as horas vitais e nem sempre necessárias.

Num gole d’água, sedento, o soluço desperta a desgraça,
De viver por estar vivo, sem culpa e sem vontade.
As moedas ganhas são respingos da sujeira diária
Dos setecentos gramas de lixo que produzimos diariamente.

Bitucas de cigarros amenizam qualquer coisa.
Na cor opaca do papelão ele sonha algo colorido?
Na garrafa ardente ele quer comemorar
Como os gentis comemoram no final da tarde.

Na essência da humanidade, ele puxa a carroça
Anda na contra mão, de pés descalços, como muitos naturalistas cult
E uma parte dele é chamada de loucura.
Talvez seja o lado que a solidão matou.

E o cristão diz: a culpa não é minha.
Cimenta espaços sob os viadutos
Na esperança (todo cristão se alimenta dela)
Dele desaparecer com o vento.

Mas, o vento é sábio e não tem lado.
Sopra na cara, e foge.
Arrepia os pelos dos cachorros, enche os olhos do cristão de terra
E empurra a carroça nas subidas do desgraçado filho do lixo.

Cuja liberdade é plena.
Sem códigos de identificação
Sem marca passos no coração
Na vida que as vezes é pequena demais.

VANDERSON PIRES

LUZ

Luz, luz, eu quero luz!
Mas não as luzes que acendem, não as luzes que se apagam. Quero um caminho para a liberdade.
Luz! A mesma do suplício de Goethe na hora da morte. Mas qual seria a sua vontade? Enxergar melhor, ou, a ceguei total, aquela que só um grande feixe forte de luz pode conseguir?
Quero uma leveza inconsciente, porque meu racional está morto. Morto na escuridão.
E se faça a luz, como disse o personagem bíblico. A luz que guia navios. Estou a navegar no escuro, sem rumo, sem direção. Quero um farol que me guie no meio de tanta gente sem luz.
Luz! Que seja a do fósforo, aquela que não se separa do seu criador quando acessa, e que o acompanha até a morte.
Quero um novo sol, que não se aproxime tanto de mim, que não me cause câncer e que não aqueça tanto o meu dia.
Luz com força! Mas que não seja cobrada. Que não me mandem a conta.
E eu morro lentamente à procura de Luz, luz...

VANDERSON PIRES